quinta-feira, 11 de março de 2010

O BAR DA BRANCA


Nas décadas de 60 e 70 , a tropa da boêmia que trabalhava até altas horas nas redações dos jornais ,rádios , TVs e nos teatros , não tinha outra alternativa senão rasgar o resto da noite e da madrugada bebendo nas boites que fervilhavam no centro . Cada grupo tinha o seu canto preferido . O meu e o de meu grupinho era o "Canto Terzo" , na Amaral Gurgel . Na foto que ilustra a matéria, tirada em 1963 , estão Machadinho , eu e Lobato , num bar que existia ao lado do antigo Estadão , na Rua Major Quedinho . Mas quando a noite dava sinais de cansaço e o sol ameaçava desabar sobre o mundo , todos procuravam o último refúgio para comer algo de bom àquela hora : o bar e restaurante da Branca , cujo nome já escapuliu de minha memória . Ficava lá pelos meios da Avenida Nove de Julho , um pouco além do Viaduto Major Quedinho onde se erguia , majestoso , o meu Estadão . Branca era uma figura admirável da noite . Já beirava os 50 anos mas conservava toda a beleza da juventude . Sempre simpática . Sempre sorridente . Sempre educada . Sempre elegante . Comandava a casa enorme com maestria e autoridade . Ninguém se dava ao luxo de passar dos limites . Num canto do salão , à espera de quem soubesse cantar , estavam sempre à disposição um microfone , um piano , um pandeiro , um violão e outros instrumentos musicais . Jorge Costa , Azeitona , Aracy de Almeida , Johnny Alf , Silvio Caldas e tantos outros famosos da época sempre atendiam aos pedidos , davam uma canja e interpretavam seus últimos sucessos . Era assim que a confraria de jornalistas , poetas, cantores e artistas terminavam a noite . Eu me acomodava sempre na mesa de Aracy de Almeida , por adorar sua conversa e suas piadas , ambas sempre recheadas com palavrões . Foi ela quem me apelidou de "Carniça" , devido à minha magreza .Por sorte , o apelido durou bem pouco. Quando a cabeça começava a pender pelo peso do álcool e da fome , cada um corria até o balcão do restaurante , nos fundos , e escolhia o prato desejado . Tudo era feito na hora e ficava deliciosamente bom .Encerrada a noitada , quando nas ruas as velhinhas já caminhavam em direção à missa , cada um batia o ponto na mesa da Branca : num enorme livro de capa preta , procurava seu nome e marcava o quanto havia comido e bebido .Sem trapacear jamais . O pagamento era sempre feito no final do mês . E Branca nunca teve prejuízo . Tempos bons , quando a honestidade era um atributo indispensável .

Um comentário:

Eduardo P.L disse...

Grandes histórias, grandes momentos de um passado que só quem viveu pode contar, e quem quiser acredite, embora diante dos hábitos e costumes atuais, é difícil de crer! Nunca fui boêmio. Sempre dormi e acordei com as galinhas, no sentido literal!!! Mas sei que era assim a vida boêmia de São Paulo.